Expedição Transamazônica – Diário de Bordo 01/03/2011

 01/03/2011

 

Expedição Transamazônica 2011 - Trajeto percorrido de 466 Km - Paragominas/PA a Novo Repartimento/PA. Por Sandro Lemanski

 

Na interseção da BR 422 com a BR 230 efetivamente entramos na Rodovia Transamazônica, eram 07h15min quando o comboio da Expedição Transamazônica 2011 se enfileirou, e iniciamos o deslocamento dos aproximados 320 km até Altamira/PA – como choveu muito durante a noite não é necessário pressa em sair, as ladeiras molhadas ficam realmente lisas e invariavelmente alguns caminhões podem “atravessar” no caminho.

E conforme imaginamos! Logo na primeira ladeira já havia uma fila de caminhões, ônibus, carros e caminhonetes esperando a passagem de um caminhão que “secava” a ladeira patinando os pneus – a estrada era larga neste trecho, pedimos licença e fomos passando ao lado. Para nós uma euforia quase infantil encontrar tal situação logo nos primeiros metros do dia, “vamos brincar legal!!!” era o pensamento geral dos expedicionários, um sentimento que contrastava com a aflição e a “necessidade de chegar” dos passageiros dos ônibus, dos caminhoneiros e suas cargas.

Expedição Transamazônica 2011 - Caminhão “secando” a ladeira patinando os pneus, logo uma fila se formou. Por Sandro Lemanski

Neste trecho a BR 230, com exceção de algumas ladeiras, tem boa trafegabilidade e os serviços de terraplanagem que foram realizados nos últimos anos, e as obras em andamento previstas no PAC já dão uma configuração do que será a Rodovia Transamazônica quando pavimentada, enquanto isso não ocorrer é melhor ter cuidado – os trechos bem terraplanados dão confiança em pisar no acelerador, porém chovendo tudo fica muito escorregadio, exigindo atenção e braço firme dos pilotos. É necessário cuidado com erosões nos acostamentos e com os “facões” nas ladeiras.

Expedição Transamazônica 2011 - Caminhão Baú não consegue subir a ladeira, e deslizando de ré caiu no facão. Por Sandro Lemanski

Na Vila de Maracajá – Novo Repartimento/PA, completamos os primeiros quinhentos quilômetros da Expedição Transamazônica 2011, foi também onde iniciaram os problemas de avarias dos 4×4 – o primeiro piloto a ter problema foi o Denis com o Troller Traterra, que teve a quebra do trinco de fechamento capô, certamente pela trepidação sofrida no percurso, nada que um “elástico de moto” não resolvesse – paramos no posto BR Maracajá para comprar água e lanchar (uma linguicinha frita fantástica!!!), no jardim uma árvore com duas araras vermelhas interagem com os clientes. Mais alguns quilômetros e amarramos com arame o escapamento do Willys 62 DIFAMADO; na sequência pararam de funcionar o ar condicionado da Land 110 do Rafael e do Troller Piu Piu do Sales, o único carro que se manteve incólume foi o Fusca 4×4 da Tecnocarro.

Expedição Transamazônica 2011 - O primeiro Piloto a ter problema foi o Denis com a quebra do trinco do capô do Troller Traterra. Por Rafael Fernandes

Com o passar das horas, conseguimos vencer os obstáculos encontrados, o calor aumentou e a estrada foi secando a ponto de fazer poeira. Paramos às 11h45min em Pacajá/PA para almoçar na Churrascaria Pindorama – tradicional parada de caminhões e dos ônibus da Transbrasiliana, que funciona desde antes Pacajá ser município; lá recebemos a visita de um cidadão pilotando um híbrido de F75/L200 – não deu muito papo, acho que queria mesmo era ver de perto o Fusca 4×4 da Tecnocarro e mostrar sua obra.

Expedição Transamazônica 2011 - Em Pacajá/PA apareceu este híbrido de F75/L200, estranho, mas funcional!!! Por Sandro Lemanski

Eram 12h45min quando voltamos a rodar, ainda no asfalto encontramos uma outra boiada – devia ter umas duzentas cabeças no caminho, que proporcionaram um belo visual. Como o calor e a poeira incomodaram bastante – o esperado era chuva e lama, paramos para um banho de rio – o Sales deu banho até no Troller Piu Piu e a viagem transcorreu sem maiores dificuldades. Chegamos às 17h05min na travessia de balsa sobre o Rio Xingu em Belo Monte – Senador José Porfírio/PA – a beleza do lugar encanta e a força do Rio Xingu assusta, no ponto da travessia o rio chega a ter 180m de profundidade, um lugar que fascina e que instiga ficar mais tempo por lá.

Expedição Transamazônica 2011 - Travessia da balsa de Belo Monte, Rio Xingu beleza e força que encanta e assusta. Por Sandro Lemanski

Levamos pouco mais de trinta minutos entre a chegada no porto da balsa, a travessia e o desembarque na outra margem do Rio Xingu, passavam das 17h40min e o belo entardecer faz jus ao nome do lugar. As obras da BR 230 no trecho de Belo Monte – Altamira estão em andamento, com rebaixamento de morros, drenagem, e muita terraplanagem – os grandes trechos já asfaltados foram um alívio, livrando todos da poeira, principalmente os Zequinhas Mirins.

Chegamos a Altamira/PA às 19h50min e nos dirigimos direto para a orla da cidade, chamando a atenção de quem passeava no calçadão, principalmente o Fusca 4×4 da Tecnocarro. Jantamos na Peixaria Tucunaré – filhote na chapa e tucunaré na manteiga. A comida boa e o aprazível da orla recompuseram a energia gasta durante o dia.

19h50min chegada na orla de Altamira/PA - Era só alegria no Fusca 4x4 da Tecnocarro. Por Sandro Lemanski

Percorremos 322,8 km em 12h41min, sendo 03h59min parados e 08h42min em movimento, fazendo uma média total de 25,4 km/h e em movimento de 37,1 km/h – uma média boa considerando os trechos molhados e as ladeiras, sendo a redução do ‘tempo parado’ o desafio para o dia seguinte – percorremos até aqui 789,1 km.

Expedição Transamazônica 2011 - Histórico do dia, trecho de Novo Repartimento/PA a Altamira/PA - 322,8 km em 12h41min. Por Sandro Lemanski

Como é necessário verificar e consertar as avarias dos 4×4, programamos a saída para as 10h00min, com uma parada programada em Brasil Novo/PA – para visitar o Sítio do Edu e conhecer as cachoeiras e cavernas existentes ali… 

 

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Expedição Transamazônica – Diário de Bordo 28/02/2011

 

Parentes e amigos vieram para a largada da Expedição Transamazônica 2011. Arquivo pessoal

28/02/2011

 

– O dia começou cedo conforme o combinado, às 05h30min o Denis já estava com o Troller – TRATERRA no ponto de largada aguardando os outros expedicionários. Chegamos pouco antes das seis horas junto com o Normino Filho de carona no seu Willys 62 – DIFAMADO, em seguida chegaram o Sales no seu Troller – PIU PIU, o Fusca 4×4 da Equipe Tecnocarro tendo o Wans no comando, e o Rafael na sua Land Rover 110. Também chegaram alguns amigos e parentes para a despedida e motivação a mais na largada da expedição.

Estando por fim todas as “tralhas” devidamente arrumadas, os últimos adesivos colocados, abraços e beijos dados, boa sorte desejada, às 06h30min o comboio iniciou a Expedição Transamazônica 2011.

 
 

BR 010 - A chuva inspirava os expedicionários. Por Sandro Lemanski

Percorremos pouco mais de cem quilômetros pela BR 010 até Ulianópolis/PA, onde seguimos pela estrada do ramal que corta as propriedades da PAGRISA e CIKEL – o ramal é conhecido como “Ramal da Cikel” e se paga pedágio para transitar por lá (R$53,00 em três pedágios), e até chegarmos à PA 150 – próximo a Goianésia/PA foram mais 180 km. Neste trecho efetivamente começamos a “brincar” com os 4×4, além dos plantios de cana de açúcar, reflorestamento, áreas de manejo florestal, havia algumas outras fazendas – fomos bem recebidos e almoçamos com o Sr. Aristides em uma delas. Certamente o trajeto proporciona um belo visual, a estrada é boa, em alguns trechos é possível atingir 70 km/h, mas o melhor foi um trecho não “empiçarrado”, era puro barro e como chovia, até o experiente Sales rodou com o Troller Piu Piu quase entrando pela mata, o Normino Filho segurava no braço o Willys 62 – Difamado, quem brincou legal foi o Fusca 4×4 da Tecnocarro com o Wans treinando drifting, nós na Land “flutuávamos” com as quatro – foi um bom treino para os pilotos.

Fusca 4x4 fazendo drifting no barro - podemos chamar de sabão. Por Sandro Lemanski

De Goianésia/PA até Tucuruí/PA seguimos pela PA 263, a estrada de asfalto está em bom estado, permitindo velocidades mais altas, cabendo atenção com erosões nos acostamentos que chegam até a faixa de rodagem. Paramos em Breu Branco/PA para abastecimento e checagem dos carros. Fizemos uma breve pausa para lanche e fotos sobre a represa da UHE/Tucuruí, que estava com os vertedouros abertos proporcionando belas fotos e encantamento principalmente nos Zequinhas Mirins.

UHE/Tucuruí - Vertedouro aberto proporcionou um belo visual. Por Sandro Lemanski

Era pouco mais de 17h30min quando saímos do asfalto de Tucuruí/PA rumo a Novo Repartimento – PA pela BR 422 – é bom transitar de dia neste trecho, além do belo visual os barrancos são um perigo real, com estreitamento da pista e sem acostamento – a barriga esfria só de lembrar. Choveu junto com o anoitecer, o que aumentou a tensão e adrenalina de todos, e logo começamos a ver e sentir os desafios da expedição – quando chove a estrada fica realmente escorregadia, haviam duas carretas que não conseguiram subir uma ladeira e atolaram, já se formava uma fila de ônibus, microônibus, caminhões, caminhonetes e carros de passeio, que mesmo tendo um desvio feito pelo trator de esteira não conseguiam passar e nos solicitavam auxílio – é necessário muito tato para pedir licença para passar na frente e explicar a negativa em puxar os mais pesados.

Carreta não consegue subir a ladeira molhada na BR 422. Por Sandro Lemanski

Chegamos a Novo Repartimento/PA às 19h50min debaixo de muita chuva – o que já aumenta a expectativa para o dia seguinte, percorremos 466 quilômetros em 13h23min, sendo 10h19min em movimento, e 03h03min parados, fazendo a média geral de 34,8km/h, e em movimento 45,1km/h – uma média muito boa considerando os trechos de chão. Jantamos na maior churrascaria da cidade – uma comida boa com preço honesto, nos hospedamos para o pernoite e marcamos a saída para as 07h00min…

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Expedição Transamazônica 2011 – Boletim diário 27/02/2011.

Após uma tranqüila viagem de Belém a Paragominas, uma fantástica recepção e acomodação na residência do Jipeiro Normino Fernandes (o Pai do Normino Filho) passamos o domingo realizando os últimos ajustes, adesivando os jipes, checando e arrumando “as tralhas” tentando passar mais rápido o tempo e aplacar a ansiedade que toma conta de todos na véspera de uma expedição. No “briefing” ficou definida nossa saída às 06:00h, e como chovia não conseguimos realizar as fotos dos jipes enfileirados, tentaremos fazer amanhã cedo antes da largada. Estando por fim tudo pronto e combinado, o difícil é conseguir dormir…

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Jeep Willys 1962 – DIFAMADO

Testando na Piçarreira, MOTOR OK!!! Paragominas - PA. Arquivo pessoal

Jeep Willys CJ5 1962 – DIFAMAD

O

Piloto – Normino Fernandes Filho – 20/03/1982, Engenheiro Civil, sócio da CACTUS Construções – Paragominas – PA.

Navegador (a)/Zequinha – Julianne/Pollyanna/Nego…

Configurações:

Motor Maxxion 2.5 Turbo Diesel Intercooler

Caixa de marcha Clarck 5 marchas

Caixa de transferência Willys com reduzida

Direção hidráulica (Opala)

Pneus New Frederico 265/70/16

Relação diferencial 9/44

Adquirido em janeiro de 2007, em Paragominas – PA, na cor azul em estado razoável, com motor hurricane 6cc e logo passou por uma reforma geral de funilaria, elétrica e instalação da direção hidráulica. Em 2010 foi instalado o motor maxxion 2.5 turbo diesel intercooler e caixa clarck 5 marchas, reposicionada a coluna de direção, volante shutz e farois auxiliar super oscar.

Principais eventos: Carnaval 4×4 Marajó 2008 e 2009; Expedição Transcametá 2010; Rallye do Sol 2010. Confirmado como o único representante do Jeep Willys CJ5 a compor a Expedição Transamazônica 2011.

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O fascínio da BR 230 – II parte

Quando falamos, ou se ouve falar da transamazônica, sempre parece como algo ruim. Mas, tudo o que vivi foi maravilhoso!!! Aprendi muitas coisas, valiosas até hoje. Conseguimos levar vacinas onde ninguém havia chegado, visitei cavernas e cachoeiras, comi muita galinhada e buchada de bode, churrasco? Quando tinha era de boi inteiro! Bebi além de cerveja e campari, muito chimarrão.

Morei no principal ponto turístico da cidade – Hotel Presidente Médice, que foi construído para acomodar os técnicos do INCRA responsáveis pelo assentamento dos milhares de nordestinos e sulistas que se instalaram na região, quando já próximo da inauguração daquela etapa (1ª e única rurópolis construída), os administradores concluíram que o lugar não daria acomodação adequada ao Presidente, foram então construídos duas suítes presidenciais para alojar Médice e sua comitiva, dotadas de centrais de ar condicionado, geladeiras, decorados com requinte, e chuveiro elétrico (instalei um no meu quarto também… A água era fria de doer!), painéis de madeira esculpida, salão para reuniões, cozinha industrial, refeitório e uma piscina em forma de feijão. O hotel alojou dois dos presidentes militares, o Presidente Médice na inauguração daquele trecho da BR 230 e da rurópolis “Presidente Médice” em 1974, e posteriormente o Presidente Geisel, que passou somente um dia, não pernoitando no hotel…

Também conheci muita gente boa, com suas histórias e estórias fantásticas – recordo do Seu Dedé, uma das figuras mais hilária e muito instigante, certamente um grande conhecedor da história local e bom contador de causos, foi um dos pioneiros a chegar, e como era fotógrafo “de ofício” tem em suas mãos o registro fotográfico da fase áurea, guarda com carinho em um classificador duro o rico acervo pessoal de imagens daquela época da construção e inauguração da BR 230 e da rurópolis, foi vereador de Aveiro e lutou pela emancipação de Rurópolis – não sei se continua tentando se eleger novamente… Conta a lenda que ele fazia de bicicleta o trecho da BR 163 até Santarém fotografando quem estava no caminho, e após revelar os filmes retornava para Rurópolis entregando e cobrando pelo serviço… Contam também que, ele “encantado” pelo cheiro, sabor e tamanho de uma jaca que lhe fora servida – e como havia  promessa da instalação de uma agroindústria de beneficiamento de frutas, resolveu que seria um bom negócio e plantou cinco mil pés de jaca – quinhentos já seria um exagero, a agroindústria nunca foi inaugurada e o lote abandonado – ninguém suportava o cheiro de jaca apodrecida… Quando o conheci, ele era proprietário de uma “casa noturna”, que também funcionava de dia, era também presidente do conselho municipal da criança e do adolescente – não me perguntem o porquê? Imagino que para evitar o abuso ou exploração de meninas, posto que homem de bem sempre se mostrou… Sempre me convidava, e por alguma razão nunca fui ao estabelecimento.

Digo sempre que, viver na esquina da BR 230 com a BR 163 foi muito bom!!! Tão bom que, um belo dia a irmã da minha mulher me telefonou de Itaituba (era enfermeira lá), pedindo que fosse buscar sua irmãzinha caçula no aeroporto, pois estaria chegando para trabalhar… E que Eu desse toda a atenção possível. O que posso dizer? Estamos casados desde então…


O fascínio da BR 230 – I parte.

O simples fato de estar na Amazônia, com seus encantos, lendas, riqueza natural, rios, praias, cachoeiras, cavernas, plantas e animais já seria suficiente para deixar até os mais desatentos completamente mundiados… Mas, a Rodovia Transamazônica (BR 230), produz algo a mais, seus quarenta anos mexem com o imaginário, mesmo dos que ainda não tiveram a oportunidade de estar na Amazônia. A precariedade da rodovia é o sonho de muitos jipeiros, pois instiga, somente aos mais aventureiros, sua travessia em veículos 4×4, e instiga não somente pela vontade e possibilidade de transpor o que muitas vezes parece, ou é intransponível, mas também pela história do projeto inicial, como viveram e vivem os novos amazônidas. O meu encantamento pela BR 230 e região, vem desde os tempos da Escola Tenente Rego Barros, onde assistíamos os cinejornais nas aulas de Educação Moral e Cívica – EMC, e Organização Social e Política do Brasil – OSPB, e lá se contava tudo sobre a grande aventura e sonho de muitos brasileiros, e apesar do encantamento realizávamos debates bem interessantes para a pouca idade vivida, outras fontes de inspiração eram as histórias e aventuras contadas pelo meu Pai, um catalineiro que chegou por essas bandas em 1958 e ajudou a escrever a história da FAB aqui na Amazônia; e o meu Tio André, que de Altamira ganhou o mundo e com seus livros, contos e causos nos remete aos rincões da Terra do Meio, curupiras, matintas e todo o encantamento da natureza.

Para  jipeiro tudo pode perecer uma grande diversão, e pode acreditar, é! Porém existem no Pará 1,2 milhões de pessoas que vivem nas cidades, vicinais e margens ao longo da rodovia, Eu já fui um desses viventes, e apesar de todas as dificuldades sempre fui muito feliz ali – a energia “estável” do tramoeste chegou junto comigo em Rurópolis no início de 1999, iluminação pública? Havia em três pontos: 1- Porta da Delegacia de Polícia (próximo a Prefeitura); 2- Porta do Posto Telefônico (que funcionava até 21:00h); 3- Porta do Hospital do SESP (que estava em processo de municipalização); certa vez levei mais de vinte e quatro horas para voltar de Santarém para Rurópolis, são 219 km pela BR 163, dos quais já estavam asfaltados 88 km (ônibus pesa parceiro!), hoje o asfalto já passou do quilômetro 152 e o restante está sendo trabalhado; em uma tentativa de chegar a Itaituba (157 km) voltamos do meio do caminho pois, após “vencermos” um atoleiro de uns dois quilômetros chegamos a um tubulão metálico que havia se rompido e sido levado com a força da enxurrada, não havia como atravessar o córrego que vez ou outra virava um rio; nas ladeiras que tem no caminho para Placas (80 km) caí de moto algumas vezes subindo e outras descendo, nas vicinais também… Vi coisas terríveis, acidentados e doentes esperando e rezando para que o pequeno avião pousasse, recordo de uma viagem em ficamos sobrevoando Rurópolis por mais tempo que a distância para Itaituba e quando o avião “tocou a pista” a lama veio na minha janela (foi um susto grande e uma risada legal!); plantações e pomares carregados de frutas apodrecidas (não valia a pena colher por que não havia comprador, nem tinha como escoar a produção), um outro dia encontrei um colono cearense que ia descalço pela vicinal (não recordo o quilômetro) e com uma saca de pimenta do reino nas costas, parecia um garimpeiro, parei a moto para perguntar quantas casas haveriam mais a frente somente para assuntar… Até pensei em dar uma carona, mas estava com o isopor de vacina na garupa e tinha que ir até a última casa daquela vicinal com mais de trinta quilômetros… “Não precisa não doutor, já estou chegando! Vá com Deus que o senhor vai ter muito trabalho hoje…” E ele tratava aquele saco de pimenta como ouro mesmo, naquele ano o preço chegou a R$19,00/kg, então o sacrifício valeria algo em torno de setecentos a oitocentos reais, um bom dinheiro naquela época e situação…


A Rodovia Transamazônica (BR 230)

A Rodovia Transamazônica (BR-230), projetada durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969 a 1974) sendo mais uma das chamadas “obras faraônicas” realizadas pelo regime militar, devido às suas proporções gigantescas é a terceira maior rodovia do Brasil, com 4.000 km de comprimento. A Transamazônica corta o Brasil no sentido leste-oeste, por isso é considerada uma rodovia transversal e sua identificação inicia pelo número “2”; cortando os estados brasileiros da Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas, os extremos da rodovia são respectivamente em Cabedelo-PB e Lábrea-AM (o projeto previa chegar até Benjamin Constant-AM e de lá ligando Iquitos no Peru e Quito no Equador, totalizando oito mil quilômetros asfaltados).

Para o desenvolvimento da obra, o governo conduziu para a região aproximadamente quatro mil homens (entre 1970 e 1973), com o intuito de abrir estradas, vicinais e estabelecer a comunicação entre as cidades de Marabá, Altamira e Itaituba aqui no Pará. Os trabalhadores ficavam completamente isolados e sem comunicação por meses, alguma informação era obtida apenas nas visitas ocasionais a alguma cidade mais próxima.

 

Consta na história oficial que, no dia 6 de junho de 1970, o presidente foi ao semi-árido nordestino e emocionou-se diante do drama da seca, foi nesse momento que decidiu pela construção da Transamazônica.

Planejada com o objetivo de integrar e interligar as regiões, especialmente a região Norte com o restante do Brasil, e por fim estabelecer outra possibilidade de as regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste chegarem até o Pacífico fazendo uma ligação com o Peru e o Equador, interligando a BR 230 – Transamazônica com a BR 101 – Translitorânea, e depois pela BR 010 – Belém/Brasília.

Br-230mapa.jpg

Outro objetivo, talvez o principal, era o de povoar aquela área tão desabitada, um desafio desde os tempos do Brasil Colônia. Considerando o discurso nacionalista, quando em 1966, o presidente Castelo Branco falava em “Integrar para não Entregar”, e ao inaugurar a Transamazônica, numa clareira a 8 km de Altamira no dia 30 de agosto de 1972, convidou “os homens sem terra do Brasil a ocuparem as terras sem homens da Amazônia” os militares pregaram a unificação do país, Médici queria atenuar o conflito social e reafirmar os slogans do “Brasil grande” e do “milagre econômico”, além disso, era (e ainda é) preciso proteger a floresta contra a “internacionalização”. Infelizmente o que se viu foi o crescimento da dívida externa e mais uma ferida profunda, ecológica e social, para o território. O custo da construção da Transamazônica, que nunca foi acabada, foi de US$ 1,5 bilhão.

O planejado previa ao longo do trecho a construção das vicinais, as chamadas “agrovilas” (conjuntos de lotes com casas instaladas em lotes de 100 ha, que deveriam contar com uma escola de 1º grau, uma igreja ecumênica e um posto médico), de “agrópolis” (reunião de agrovilas assistidas com serviços bancários, correios, telefones e escola de ensino médio) e de “rurópolis” um conjunto de agrópolis.

Os fatos e a realização do projeto não ocorreram como planejados, na prática, foram implantadas poucas agrovilas e apenas uma agrópolis (Brasil Novo), hoje município de Brasil Novo e uma rurópolis (Presidente Médici) município de Rurópolis, que completará 23 anos de emancipação em maio próximo. É difícil determinar o que levou ao abandono do magnífico e ambicioso projeto: A diminuição momentânea da cobiça internacional sobre a floresta? Ou não, sendo o despovoamento provocado com o fim do modelo pretendido, de pequenos lotes e projetos individuais pela implantação dos mega projetos (inclusive minerais), mais uma tentativa de manter o patrimônio natural intocado? Terá sido o declínio da capacidade financeira do regime militar para os projetos estruturantes? Os desbravadores iniciais não resistiram ao desafio de vencer a floresta? Boa parte dos primeiros imigrantes voltou aos seus estados de origem, ou se fixaram nas cidades ribeirinhas, principalmente Marabá (Rio Tocantins), Altamira (Rio Xingu), Itaituba (Rio Tapajós), Santarém e Manaus (Rio Amazonas), que além de aeroportos, tinham melhor infra-estrutura de saúde (Serviço Especial de Saúde Pública – SESP), educação e serviços. Ademais era possível, mesmo no inverno, o deslocamento das pessoas, mercadorias e produtos em embarcações pelos rios.

Mapa da bacia hidrográfica do Amazonas no Brasil

A “grande fronteira” na verdade, a aquela época, era mais ao sul do Pará, região que passou a ser chamada de “arco do desmatamento” ou “arco de fogo”, sendo a abertura da BR 010 Belém/Brasília (simultânea a BR 230) e posteriormente a BR 364 Cuiabá/Porto Velho/Rio Branco, consideradas fomentadoras desse processo.

O povoamento da região e o desenvolvimento da produção agrícola e da pecuária se deram principalmente pela região Centro Oeste, nos estados de Tocantins (antigo Goiás), Mato Grosso, Rondônia e posteriormente sul e sudeste do Pará e Acre, houve também a construção da BR 163 – Santarém/Cuiabá, e a BR 230 interligando pela BR 319 – Manaus/Porto Velho, e daí seguindo pela BR 364 passando por Rio Branco possibilitando por fim chegar até Porto Callao no Peru. Bem! Talvez aqui esteja a melhor resposta ao abandono do projeto, além da tão desejada porta ao Pacífico, em menor tempo a região Centro Oeste teria mais gente e riquezas (não somente toras de madeira) a circular, sendo assim houve uma priorização na abertura e construção da malha viária nesta região, em detrimento dos trechos da BR 230 no Pará e Amazonas.